‘Espetáculo causou profundo incômodo’, dizem professores negros da Ufba em carta aberta

No texto, docentes da Escola de Teatro pedem audiência pública para discutir racismo

0 43

Em carta aberta, quatro professores da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (Ufba) afirmam que o espetáculo Sob asTetas da Loba, que esteve em cartaz até o domingo passado (2),  “causou em parte do público um profundo incômodo com a representação do negro e da negra”. A declaração,  assinada pelos professores doutores Alexandra Gouvêa Dumas, Érico José Souza de Oliveira, Licko Turle e Stênio José Paulino Soares, apoia a  manifestação realizada pelo coletivo Dandara Gusmão – que, no sábado (1º), subiu ao palco do Teatro Martim Gonçalves, no Canela, e interrompeu a peça com a justificativa de que a montagem é racista. Com direção do baiano Paulo Cunha, a peça é uma adaptação de texto do paulista Jorge Andrade.

Na carta, os professores afirmam que o espetáculo reforça estereótipos de representação dos negros, “já sinalizada na própria história do teatro brasileiro, como a empregada doméstica que serve sexualmente ao filho branco dos patrões; o negro assassino, estuprador e violento; a colega negra desbocada e sem modos de uma moça branca e educada; a prostituta negra lasciva, sexualizada e violenta”. Já o produtor da peça, Victor Gonçalves, afirma que o texto “é o retrato de uma sociedade oligárquica que expõe, em quatro peças simultâneas, a desigualdade social entre brancos e negros”.

 Ao CORREIO, Alexandra Gouvêa se limitou a dizer que a carta foi produzida e direcionada à comunidade interna da escola, além das entidades e organizações, como Ordem dos Advogados (OAB), Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult-Ba),  Ministério Público do Estado (MPE), Associação dos Professores Universitários da Bahia (Apub), Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), e aos movimentos negro e feminista, a quem solicitam apoio para a realização de uma audiência pública para  discutir o racismo.

A professora comentou, ainda, que não se pronunciará individualmente, por compreender que o objetivo do conteúdo partiu de uma ideia coletiva com demais colegas. Alexandra também não citou a suposta agressão sofrida pela professora Deolinda Vilhena, que afirma ter sido atingida no rosto ao ter o celular puxado por um dos líderes do Dandara Gusmão, o estudante da Escola de Teatro Dêivisson Gonçalves de Jesus.

Agressão e debate

Procurada pela reportagem, Deolinda disse que foi agredida no domingo (2), dia seguinte à intervenção do grupo no palco do teatro, quando realizavam uma segunda manifestação, desta vez, na parte externa. Ela comentou, ainda, que registrou uma Certidão de Ocorrência  na Polícia Federal. “Fui À polícia na terça-feira (4). Fiz o registro contra Dêivisson quanto à agressão física e verbal sofrida por mim”, afirmou a professora, que informou ter ido acompanhada de um representante da Coordenação de Segurança da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

A reportagem tentou contato com o estudante, por meio de telefone e redes sociais, mas não obteve respostas. Em nota divulgada na página do coletivo no Facebook, o grupo Dandara Gusmão se refere à interrupção do espetáculo como “uma forte atitude”. “Não é de hoje que sabemos como o racismo funciona na Escola de Teatro da UFBA, como também no seus diversos mecanismos se sustentam em oprimir nosso povo para conquistar nosso silêncio”, diz a nota [veja íntegra abaixo]. O grupo também publicou um vídeo do momento em que Deolinda afirma ter sido agredida.

 

Fonte: Correio24horas

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.